Arquivo mensal: março 2012

COLONDINA A ENFERMEIRA DO QUILOMBO


Esta é a história de MARIA DE COLODINA, mãe de santo, curandeira, benzedeira, parteira e, já nos últimos anos de vida, enfermeira, por artes e graças do dr. Drumonnd, de Camaçari, Bahia. Infelizmente, a maioria das pessoas que conheceram COLÓ já faleceu, restando poucas, talvez umas dez, para prestarem noticia, assim mesmo vagas, da mais caridosa das almas que já habitou o povoado de Montegordo.

MARIA DE COLODINA, mais conhecida por MÃE COLÓ, filha de ex-escravos, fugidos ou libertados por seus senhores, nasceu por volta de 1860 e faleceu em 1945, vivendo toda sua vida em Montegordo, onde até hoje, é lembrada, ou melhor, venerada como um anjo de bondade, candura e caridade. Dedicou toda sua existência, todos os minutos de sua extensa vida, a cuidar dos outros, próximos ou não, sacrificando, não digo sua vida particular, porque isso ela nunca teve, mas tudo o que nós reles mortais, chamamos de prazeres mundanos. Nunca casou ou pariu filhos, embora, adotivos os teve uma penca. Suspeita-se que ela viveu um grande amor, um amor platônico, casto, fraterno, fiel e que durou para sempre, todavia não nos adiantemos.

O que era Monte Gordo, topônimo igual ao de uma vila do Algarve, litoral sul de Portugal, na época do nascimento de MÃE COLÓ ? Um Quilombo, na verdadeira acepção da palavra, valhacouto de negros fugidos? Acho que não, pois demais perto da Casa da Torre, castelo de Garcia d’Ávila e num local impossível de ser defendido militarmente, prefiro crer que fosse uma área de terra doada ou distribuída a escravos libertados, provavelmente filhos do senhor ou dos seus capatazes portugueses com as escravas destinadas aos serviços sexuais dos mesmos.Isso deve ter se dado quando da decadência da Casa de Garcia d’Ávila, no século XVII e XVIII. O que nos leva a formular essa hipótese é a não predominância da cor negra e a existência de pessoas de cor clara, descendentes de famílias radicadas no local a tempos imemoriais. Outra observação, é a divisão de terras, toda ela em pequenas roças, possíveis de suprir a subsistência da família, não havendo grandes propriedades, com poucas exceções. Aliás, não havia nem propriedades, havia “posses”. Se o “posseiro” necessitasse, venderia o coqueiro ou o pé de piaçaba existente no terreno. Passando a ser essas arvores, mercadoria de uso corrente. Por causa dessa divisão de terra, não se formou uma vila, no sentido lato da palavra. Não havia um arruado, se quer um aglomerado de casas, de taipa e cobertas com palmas de piaçava, todas dispersas, embora perto umas das outras, ao alcance de chamados vocais. De vila, mal tinha uma igrejinha e um descampado em forma de praça, nada parecendo com a “agora” dos gregos. Não havia nenhum sinal de progresso e civilização. Não havia estradas, luz elétrica (1980), telefone (1987), água encanada (1998), posto médico ou policial, nem escola de qualquer grau e o ensino apenas, do ABC e das quatro operações, era feito precariamente, por professoras leigas em suas próprias casas.

Sobre a população, o historiador local, Adelmo Borges dos Santos, faz a seguinte apreciação : “ A forma de convivência das pessoas tinha como principio compartilhar voluntariamente a vida. Era considerada mais importante a sobrevivência do grupo que o individuo. Os membros do Quilombo viviam e trabalhavam de forma comunitária e todos os benefícios do trabalho era compartilhada (os chamados mutirões ou muxirões – nota do autor) ). As decisões eram tomadas conjuntamente, bem como os cuidados com as crianças, preservando-se os vínculos especiais entre os pais biológicos e filhos”. E, continua: “Muito religiosos os escravos tinham como padrão adorar a natureza e, em suas manifestações e cultos à mesma, encontravam a razão e a presença de DEUS. Respeitavam e prestavam devoção principalmente às entidade relacionando-as com os fenômenos naturais…”.

A alimentação era praticamente gratuita: Criavam bois e vacas, bodes e cabra. porcos e galinhas. Peixes, camarões e pitus eram do mar, lagoas e rios, caranguejos tirados dos mangues. Farinha de mandioca era feita em alegres mutirões, frutas, verduras e temperos de suas próprias roças, o sal vinha do mar. Faziam alguns tostões levando o excedente desses produtos para vender na feira de Camaçari e, com eles, adquiriam a essencial cachaça, o gás para o candeeiro, pão e biscoitos, o tecido e aviamentos para costurarem suas próprias roupas etc .

Como vemos, os habitantes de Montegordo viviam, salvo pouquíssimas exceções, em estado de miséria, mesmo para os padrões da época. ERAM, ENTRETANTO, FELIZES E SABIAM DISSO MUITO BEM.

Neste ambiente, nasceu e viveu os primeiros anos de vida, a menina COLÓ. Mantendo nos anos da juventude, a pureza de procedimentos dessa pura sociedade, cedo se manifestando seus sentimentos de amor ao próximo, externados pelos seus cuidados com as crianças e a preocupação com os desvalidos e doentes. Ainda menina, era a ela que os vizinhos recorriam, quando necessitavam de uma “babá” ou de alguém que “olhasse” um enfermo. Era o seu destino sendo traçado e a ele se entregou e seguiu até o ultimo instante de sua longa vida.

Filha de uma “Mãe de Santo”, seguia todos os preceitos da sua religião, tornando-se no devido tempo uma “Filha de Santo” e, posteriormente com a morte de sua mãe, assumiu a chefia da casa, do Terreiro, Yle-Ansã-Ofunjá, mas delegava muitas de suas obrigações às suas “Filhas”, para que pudesse dedicar atenção, quase integral, às grávidas e parturientes, às crianças e aos enfermos. A quem a criticava por isso, dizia:

– – Iansã ( orixá dos ventos, tempestades e morte) e Osaê ( das folhas medicinais e litúrgicas ), fizeram a minha cabeça e me dizem que minha missão principal é cuidar dos outros.E pegava da parede, o cetro com rabo de cavalo, o sacudindo para espantar os espíritos do mal que provocam perturbações físicas e psíquicas nas pessoas que subjugam, gritava sua saudação: “Eparrei Iansã !”

Interessada desde pequena, aprendeu com as curandeiras e rezadeiras, os segredos milenares do uso das ervas e das palavras santas. Nas técnicas, nos usos e costumes das velhas parteiras e “ aparadeiras ”, introduziu melhorias, principalmente a perfeita higiene e assepsia, passando a ser a preferida de todas as parturientes. A mesma higiene que pregava para as crianças e utilizava no tratamento dos “seus” doentes. Hábil costureira, fechava os feios cortes que a profissão impunha aos pescadores, usava ungüentos de sua fabricação própria e com ele curava as piores feridas. Possuía um estoque inesgotável de pomadas, pós e ervas para chás milagrosos para todos e quaisquer males, desde dor de cabeça, espinhela caída, menstruação desregulada e até unha encravada.

E ia muito bem, tratando e assistindo seus pacientes, respeitada e querida por todos, quando lá pelos anos 20, teve que acompanhar um enfermo, pessoa das mais gradas da localidade, para consulta com um medico na cidade de Camaçari, já que suas benzeduras não tinham produzido efeito. O transporte do doente, na falta de um veiculo auto-motor, foi feito numa rede suspensa num caibro levado por dois fortes negros e MÃE COLÓ foi caminhando, “de peis”, toda a viagem segurando na mão do desvalido, que não a soltava um instante. Nos três ou quatro dias quanto durou o tratamento, ela não arredou pé do lado da sua cama, fazendo sua higiene, ajudando o doutor em tudo que fosse preciso. O medico, Dr. Drumonnd, muito conceituado em Camaçari só a tratava por “Enfermeira”, termo que até então nunca ouvira e ao dar alta ao paciente, fez questão de lhe presentear seu retrato, com dedicatória que dizia: “À enfermeira, Dona Codolina, com a admiração do Dr. Drumonnd, fev/1923”. Narciso, do Amarelinho e Lourinho, marido de Linda, ainda lembram do retrato, já esmaecido pelo tempo, que ela mantinha pendurado na parede da sua “sala de visitas”.

Ao voltar a Montegordo, MÃE COLÒ, avisou a todos que daí em diante o tratamento que lhe era devido, seria : ENFERMEIRA COLÓ, graças ao diploma que lhe havia sido outorgado pelo Dr. Drumonnd e apontava para o retrato na parede. E passou a usar sempre, roupas brancas e para distinguir do branco “de preceito” das “filhas de Oxalá”, pregou uma baita cruz vermelha no bolso de sua blusa, sendo chamada pela sua “clientela” de FERMERA COLÓ. E alem das rezas e benzeduras, passou a distribuir “amostras grátis”que o bondoso medico lhe mandava de Camaçari, para as doenças mais corriqueiras, dores de cabeça, barriga e quartos, impaludismo, eczemas etc, mas sempre fazendo questão de explicar:

– – Minhas rezas e poções são fortes, mas tome esses remédios que o Dr. Drumonnd me deu, que é para ajudar à minha benzedura !

A sua grande magoa, entretanto, foi o fato da família do Sr. Rafael Vieira, pai de Joãozinho, dar preferência a uma sua concorrente de Barra do Pojuca, embora mantivessem excelentes laços de amizade.

Dizia com orgulho, que nunca havia recebido um tostão sequer pelos seus serviços, entretanto confessava que, com os adjutórios ofertados, mantinha a si e aqueles a quem ela ajudava.

E por muitos anos ainda, continuou dividindo seu tempo entre o candomblé e sua profissão, e agora, ajudada por um forte rapaz a quem chamava de filho, que diziam que foi o seu grande amor, puro e platônico. Até o dia de sua tranqüila morte, nem uma vez sequer, negou-se a atender aqueles que lhe procuravam.

Seu sepultamento se constitui no maior acontecimento de todos os tempos na região. Além de toda, mas toda mesmo, população de Montegordo, vieram delegações de todos os povoados visinhos, como Barra do Jacuipe, Jordão, Barra do Pojuca, Arembepe, Jauá e até Abrantes. De Camaçari, veio uma delegação encabeçada pelo prefeito e pelo velho Dr. Drumonnd. Todos os terreiros de Candomblé se fizeram representar e com seus atabaques e cantos das yalorixás acompanharam todo o cortejo, que foi recebido na porta da igreja de São Bento, ao lado do Cemitério, pela Filarmônica de Camaçari e sob intenso foguetório, pois comemoravam a subida de MÃE COLÓ aos céus, ocupando seu merecido lugar junto a DEUS e aos seus ORIXÁS.

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Pés descalços

O grande mestre Matta e Silva nos explica : ”Nós, umbandistas, consideramos o conga’, mesmo sem “santos” no altar, um lugar imantado, onde forma fixadas certas forcas ou vibrações positivas, que deve estar sempre limpo de fluidos negativos e onde conservamos os pontos riscados destas mesmas forcas ou ordens, mesmo porque certos preceitos são procedidos nele.
Assim, é de obrigação se tirar o calcado, visto este objeto ser anti-higiênico, pois se pisa com ele em tudo, às vezes em detritos e putrefações, ainda por querermos estar em ligação desembaraçada com o elemento terra, sabendo-se que esta é o escoadouro natural das vibrações ou ondas eletromagnéticas.”

Navio Negreiro

Sempre antes de iniciar um trabalho fico imaginando o quanto os nossos ancestrais sofrerem para que hoje pudessemos professar a nossa fé, quantas chibatadas, quantas humilhações, quantas mortes quantas lutas, mas o tempo passou e aquilo que era bom ficou. Como pelos frutos se conhece a árvore, a nossa umbanda espalhou no passar dos anos muitas histórias de amor, curas, exemplos de vida e muito mais que isso: plantou a fé no coração das pessoas que, até hoje, chegam nos terreiros com lágrimas nos olhos, desânimo no olhar com forças somente para repetir mais uma vez as suas dores e lamúrias para uma entidade com a esperança de que ela possa lhe ajudar e saem de lá com a certeza de que Deus não a abandonou, animadas e com a certeza de que para ela haverá sim uma solução. Relembrar é viver pois a vida não existiria sem o passado, por isso no dia de hoje Salve os negros, Salve as negras, Salve os inocentes que foram tirados de sua terra para serem escravizados com dor e impiedade, que Deus nas alturas dos céus traga á todos esses espíritos muita paz e luz e os recompense pelo grande exemplo de vida que nos deram, exemplo esse que vive até hoje em nossos terreiros servindo de motivação e exemplo á todos os Pais e Mães de Santo que lutam até hoje por um mundo justo e igual. Axé…

O Médium e suas vestes

Desde muito tempo as vestes se tornaram parte muito importante nos rituais religiosos, a liturgia ensina que os paramentos litúrgicos fazem parte de nosso louvor e adoração, pois, momentos importantes exigem posturas importantes. Desde a idade média os paramentos usados por padres em cerimonias religiosas seguem fielmente uma regra no que diz respeito á cores e modelos: a cor vermelha é utilizada no pentecostes e nas festas dos mártires, o verde é utilizado no tempo comum, o roxo em tempos marcados pela espera e preparação (tal qual quaresma e advento), existem outras cores, a mais importante (para mim) o branco e o dourado são usados nas solenidades, as festas mais importantes, porém, o branco possui uma gama enorme de uso no que diz respeito á liturgia: é a cor das túnicas que simboliza o estado espiritual da pessoa, é cor das alfaias simbolizando a dignidade, é a cor das roupas batismais de qualquer credo simbolizando a pureza, e é a cor mais utilizada dentro de um terreiro. O branco é a cor de Oxalá o Pai de todos, na África quase todos os orixás vestem branco, tanto que nas saídas de yaôs a primeira saída é a saída de branco, porém, existem as divindades que só vestem branco, eles são conhecidos como Orixás fun-fun: os Orixás que vestem branco; as pessoas albinas são iniciadas á essas divindades, o branco na cultura africana está ligada ao ser máximo, á pureza; como todo trabalho umbandista é fundamentado na adoração á Deus e na prática da caridade como forma de adoração o branco marca presença constantemente: nas roupas, na toalha do médium, no pano de cabeça, na toalha do altar e por aí vai. A partir do momento em que uma pessoa adere a doutrina umbandista ela reconhece que seu corpo é templo e morada de Deus, é uma matéria dada pelo criador como material de trabalho á ser utilizado nessa encarnação, sendo assim sabemos que esse corpo merece um cuidado todo especial inclusive no que diz respeito ás vestes, hoje vamos falar sobre as vestimentas utilizadas nos trabalhos umbandistas. Na Umbanda também existem paramentos e pelo “incrível” que pareça na umbanda as cores também designam a cerimonia á ser celebrada, por exemplo quando vemos uma casa onde todo o corpo mediúnico da casa está portando vestes pretas e vermelhas logo percebemos que o culto á ser celebrado não pertence á um Preto Velho ou a um Caboclo e sim aos Exus e Pombas Giras. O médium deve usar roupas brancas em qualquer que seja o trabalho a ser realizado principalmente se o médium for desenvolvente, se no trabalho vai haver uma saudação á Exu seguida de incorporação o trabalho deve ser aberto com vestes brancas e depois da incorporação as vestes são trocadas de acordo com a linha. Toda roupa utilizada em trabalhos devem ser lavadas no mínimo um dia após o seu uso pois as roupas também são ferramentas de trabalho (nem é preciso dizer que elas devem ser separadas para uso exclusivo dentro de terreiros), como elas são agentes de absorção não se deve ir para o centro utilizando a roupa de trabalho, ela só pode ser vestida no centro após o banho de descarrego e retirada logo após o trabalho. As roupas dos médiuns seguem também uma maneira diferente de limpeza: elas devem ser lavadas na sombra com as mãos com o uso somente de sabão de coco, a água que será usada deve receber uma pitada de sal ou açúcar (nunca os dois juntos), folhas de alecrim e arruda, quando as roupas são do culto á Exús, Pombas Gira e afins a água deve receber somente uma pequena quantidade de cachaça ou chanpagne, manchas devem ser retiradas somente com o uso de álcool, enquanto se lavam as roupas, nas mãos, a pessoa que estiver lavando vai cantando pontos de descarrego ou de entidades. Depois de lavadas, as roupas podem receber um banho de água de colonia ou de lavanda ou de alfazema (que são as únicas duas fragâncias que antigamente o médium podia usar durante o trabalho) e colocadas para secar na sombra (nunca expostas ao sol ou a lua). Se as roupas utilizadas nos trabalhos recebem todo esse cuidado imagina então os médiuns o quanto devem se preparar para participar de um trabalho, gira, etc. A cada dia que se passa, a cada coisa que se aprende, mais se comprova que a UMBANDA É COISA SÉRIA PARA GENTE SÉRIA!!! Até a próxima, Axé…